Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Bela Velhice. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bela Velhice. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Velhice bela....

Sentado no café observo o senhor ao lado devorar os jornais, mergulhado na vida, antenado com seu vasto tempo, apesar dos seus aparentes oitenta e poucos anos. Relembro, é inevitável, Lya Luft in MÚLTIPLA ESCOLHA, Ed. Record,lá pelas fls. 46 e 47:


"Velhice é apenas outra fase: mas, como se ela fosse algo estanque, um setor final, procuramos esquecer-nos dela no nosso baú de enganos, a  chave guardada por algum duende que ri de nós ( a gente finge não ver). Nem parece que hoje vivemos mais com maior qualidade, podendo ter saúde, interesses e afetos até os oitenta ou noventa anos (logo serão mais), desde que levando em conta as limitações normais: parecemos um carro em disparada, com faróis voltados para trás.

Ignoramos que os velhos  também viajam, estudam, passeiam, namoram, trabalham quando podem, curtem amizades e família -  sem se pendurar nelas como vítimas chorosas. Não importam as décadas acumuladas, eles são mais velhos: são pessoas. Mas para nós, nesta cultura em alguns aspectos bizarra, a velhice é antinatural, é quase uma enfermidade. Em lugar de saborear os prazeres dessa idade, sofremos agonias desnecessárias, agarrados freneticamente à tábua de salvação dos modernos procedimentos estéticos.

E mesmo que se possa manter, com vários recursos, uma aparência boa (não patética, nem que desperte piedade e cause susto) em qualquer idade - escondendo anos de vida a mais -, nenhum artifício, por mais hábil que seja, substitui uma mente arejada , a alegria de viver, e o prazer das coisas.

Éramos velhos muito cedo , em outros tempos. Na Idade Média, a vida dos homens  chegava geralmente aos vinte, a das mulheres um pouco mais, eventualmente aos trinta, já doentes e desdentadas: nada da imagem da bela donzela medieval.

Ignoramos o fato de que , quando não pudermos mais realizar negócios, viajar a países distantes ou dar caminhadas, poderemos ainda exercer afetos, agregar pessoas, ler bons livros, observar a humanidade que nos cerca, eventualmente lhe dar abrigo e colo. Para isso não é necessário ter agilidade, musculatura, pele de porcelana, olhar luminoso, MAS QUE A ALMA TENHA CRESCIDO, COM GALHOS, FOLHAS, RAÍZES, E QUEM QUEIRA POSSA SE ANINHAR ALI.
.......................................

A chegada da velhice não precisa enferrujar a alma. Sendo inevitável, ela devia ser aguardada  e recebida como uma amiga há muito anunciada. E ela vem aos poucos, vem mansa. Não precisamos pedir desculpas quando ela chega, inventando para os outros  que temos menos idade do que temos.Não precisamos nos desculpar nem por ainda querer alegrias e curtir atividades, nem por talvez precisar de ajuda e atendimento. O espírito é mais importante do que rugas, manchas, andar lento e corpo encolhido: não o espírito jovem, de que falarei adiante, mas um espírito próprio de cada idade, aberto e gentil."

O senhor ao meu lado encerra o primeiro jornal. Abre outro e pede mais um café. Nossos olhares se cruzam e parecem enviar a mesma mensagem: eu  também tenho meu jornais pra devorar e um cafezinho de sonho pra sorver. Sorrimos numa cumplicidade intelectual e afetiva. Escuto claramente quando diz, de forma incompleta,  que esse governo.... E acrescenta de primeira, sem deixar a bola cair, que o melhor é pensar no Fluzão que joga  hoje tentando subir na tabela do campeonato brasileiro, porque o resto não tem jeito mesmo.

Lya Luft, como na imensa maioria das vezes, tem toda razão.


Valeu!

Abraço!

Rony Lins

MARACANAZO E A COR DA PELE

Dia 16 de julho agora, é, 16 de julho de 2020, o MARACANAZO completou 70 anos, ou seja, em 16 de julho de 1950 o Brasil perdeu, e...