Os livros ficaram no mesmo lugar...
Encontro o amigo no cafezinho. O jeitão meio amuado, o dia tá cinza, o humor combinando no tom, no fundo ele tá certo, chuva por perto tristeza se aconchegando. Joga a trouxa sobre a mesa, desaba o corpo jovem precocemente cansado, a vida não tá fácil, perrengue sobrando pra quem quiser.
- Tá com saco meio cheio , - arrisco com a convicção embalada na certeza da cara amarrada do meu interlocutor.
Não deu outra, as feiçoes não mentem jamais, pelo contrário, elas entregam sempre, o franzir de testa e o olho baixo sinalizam derrotas recém infligidas.
-Arrombaram meu carro e fizeram a festa, esses filhos da mãe!
-Prejuízo grande? - ainda me restava uma esperança de consolo, talvez a desgraça material não imortasse tanto, não fizese estrago de monta no orçamento mensal.
- O rádio, duas caneleiras, dois meiões, um short velho e uma camiseta bem usada, uma bola de futebol de salão murcha, - na verdade uma besteira em frangalhos com cheiro de suor, tirando o rádio, é claro.
Tomamos os cafés e dois pães de queijo, na solidariedade daquela dor causada pelo furto de quinquilharias sem nenhuma repercussão no pib doméstico ou nacional.
- Levaram mais alguma coisa, estepe, chave de roda, qualquer coisa desse tipo?
- Não, acho que nem pensaram, ladrão pé de chinelo, sabe como é, né?
- É, eles pegam o que tem pela frente e picam a mula. - O incidente foi mínimo, não dava pra estragar o café de jeito maneira. Dava pra repetir o pão de queijo se a fome colaborasse.
Mas,então, veio o adendo, o arremate, a revelação bombástica que fez e faz toda a diferença neste nosso País de hoje.
- Os livros, os livros da faculdade... Eles nem mexeram nos livros, não trocaram sequer de posição a pilha que estava no anco de trás. Os livros ficaram no mesmo lugar...
É aí que esse episódio provoca mais dores e corta mais fundo na carne do leitor atento. Porque no dia em que os livros forem mexidos e você tiver livros furtados no seu carro, é sinal de que algo está mudando, e esse país está a caminho de um futuro melhor...
VAleu!
Abraço!
Rony Lins
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