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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Contando um conto...

A vida, às vezes, é azul...


A princípio ele  não acreditou. Muito jovem ainda, o tempo era nada se você pensar em sorteios, loterias, grandes  prêmios, coisas assim, não fora possivel, ainda, se você acompanhar o tique taque do relógio, ganhar alguma coisa que realmente valesse a pena. Mas naquele puta festival, estrelas internacionais berrando na cara dele, primeira fila  na frente do palco depois de três dias acampado, sanduíche de mortadela e ovo e vice-versa, refrigerante quente e dormindo sentado do jeito que Deus ordena, chegara  ali, primeira fila, é peciso repetir, os caras cantando na sua frente, dava pra ver o amarelo dos dentes do crooner da principal banda da noite.

E ele ali, glorioso, aos berros, cantando outras letras que nem a da vez, mas cantando sem parar, é preciso reconhecer a felicidade e a benção divina de conseguir uma primeira fila num puta festival como aquele, coisa esperada há mais de dez anos.

E de repente, na terceira apresentação da noitada inesquecível, eis que não mais que num encarar de olhos breve e sem qualquer sentido além do efeito especial do espetáculo, a diva da hora  aponta na sua direção e o chama pra curtir lá de cima o clima musical a embalar o sonhos de uma multidão extasiada.

Demorou mais de dez segundos pra acreditar no convite. Mas um segurança convicto do seus deveres agarrou-o com um braço só e o soltou do lado da diva. O coração batia descompassado, se é que havia um coração vivo aquela altura. A diva sussurou coisas que ele não entendeu de jeito nenhum, roçou de um lado e do outro, o abraçou de leve sem grandes esperanças, a boca esgarçou de forma supostamene sensual e lá pelas tantas soltou um  elogio sobre a sua barriga, que deve ter sido elogio mesmo porque a galera urrou  de acordo.

Desceu depois de três minutos, os mais importantes da sua curta vida. Ídolo em questão de segundos, se tanto, imprensa, perguntas, pedidos de autógrafos, segurança, carro especial pra levar em casa , um lanche reforçado pra quem não tinha comido nada naquela noite.

No prédio virou celebridade, no bairro não dava mais pra sair na rua, na praia, o tumulto se formava em questão de segundos,. Entrevista num programa semanal de atrações variadas, ele, a atração maior, o homem que cativara a diva, o príncipe encantado cujo trono era desejado por milhões de machos do mundo inteiro.

Mas, num piscar de olhos, a casa ruiu. E desabou, por incrível que pareça, sem muito estardalhaço, por meio de uma notinha numa coluna social maldosa, dessas que sobrevivem da pimenta ardendo nos olhos dos outros. O  assessor de imprensa da diva, que enlouquecera a galera do super festival, vinha a público esclarecer, por dever de ofício, que a escolha do príncipe encantado do último show obedecera ao esquema de sempre. Azul era cor preferida da estrela . O primeiro sujeito vestindo azul da primeira fila era sempre o escolhido, fosse ele quem fosse. O critério é que não havia critério. Estava na primeira fila, vestia azul, sobe no palco pra fazer aquela cena de sonho.
O mundo ruiu, e ele agora descia pelo elevador dos fundos, não andava mais pelo bairro e evitou a praia por um bom  tempo, até que o circo musical partisse da cidade.

É  forçoso reconhecer que a vida, às vezes , é azul....


Valeu!

Abraço!

Rony Lins

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