A SOLIDÃO NÃO É AZUL...
Aposentado, sem mulher e filhos e sequer um cachorro. Morador de uma cidade média sem grandes atrativos. Amigos, os poucos, todos mortos. Solidão da pesada, no meio de uma rotina cinzenta, às vezes molhada por uma chuva que impede a caminhada matinal, e joga pra dentro do pequenino quarto e sala mais solidão.
A música já não emociona tanto, e o jornal, quase sempre falando do mundo inteiro e suas loucuras, aumenta a saudade e a distância que sente de tudo e todos.
O seu dia tem 48 horas, e vezes sem conta, não tem almoço, ou não tem lanche noturno, a fome diminui com a saudade do outro que já não existe na sua vida.
A rotina não é cera mole que pode ser moldada a gosto. É barreira de concreto forjada nas horas insones, ou mesmo matutinas, em que a voz fica presa pela falta de interlocutores.
A solidão nunca foi azul. É preta ou verde musgo, cor da treva ou de mar poluído, paisagem desolada e sempre sem vida.
E aí, não mais que de repente, surge a idéia que era tudo e veio do nada, alguém pra conversar todo dia pelo telefone, luz da minha vida, fim do meu suplício, farol fraco na madrugada coberta pelo nevoeiro, luz fraca mas luz, falar com os bombeiros ou com a polícia, interlocutores sempre atentos e com interesse, uma voz de plantão do outro lado da minha vida, o vazio um pouco menos cheio, um silêncio menos denso dentro do meu roteiro tristonho.
E tome ligação para os telefones oficiais, alta madurgada, hora do almoço ou jantar, e tome conversa ansiosa, pedido de socorro não deduzido literalmente, e chama os bombeiros para um papo legal e tome conversa com o plantão da polícia nas horas mais diferentes.
Ele cansou todo mundo e a conversa já não era mais aceita. Então, começou a delirar e a noticiar infrações fantasmas, casos estapafúrdios que só ocoriam na sua mente. Denúncias frequentes, inverídicas, aluicinadas, apavorantes, mexendo e alterando a movimentação das autoridades, com prejuízo público evidente.
Foi advertido e decidiu prosseguir. Então, aconteceu o previsível.
Foi detido em casa e levado para uma delegacia.
Na saída de casa, escoltado, conseguiu reunir as pessoas que sempre sonhara. Umas vinte, talvez trinta, esprimidas junto à portinha de arame, já na calçada, depois do jardim sem vida e mal cuidado, curiosas, algumas rindo e apontando. Era muita gente pra vê-lo e ele nunca acreditara que seria possível. Quando entrou no carro policial, na frente mesmo, deferência pela sua condição de quase septuagenário, conseguiu sorrir pelo calor humano que recebia e que nem as algemas conseguiram esfriar.
Valeu !
Abraço!
Rony Lins
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