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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
CONTANDO UM CONTO...
A VIDA NÃO É O QUE PARECE...
Sinal vermelho no trânsito caótico, doido e perigoso. Tempo breve de relaxamento, momento cronometrado pra dar uma esticada nos braços ou pernas, cada um sente em algum lugar, e uma espiadinha básica no carro ao lado.
Não pode ser...
Ele olhou por olhar e a loura de cinema, pilotando um carraço de novela das nove, fez um gesto qualquer, jeitão de convite, já que o indicador apontava pra ele.
Falar comigo? - ele colocou o próprio indicador no peito, o coração quase arrebentando. A voz foi mais gestual, o vidro fechado e o inusitado do lance não permitiam a troca de sons. Ela repetiu e o indicador apontou de novo. O espaço para dúvidas não existia mais. Era com ele. Uma louraça pilotando um navio e ainda fazendo contato num sinal de trânsito vermelho.
A mega sena, ainda que uma vez na vida, pode sair, quem sabe, só ganha quem joga...
Ele tentou jogar e lembrou que o vidro do carona estava fechado, dificultando a resposta que deveria ser dada o mais rápido possível à motorista à sua direita.
Esticou-se todo, sentiu que uma vértebra estalou de forma perigosa, a falta de exercícios físicos era um pecado reconhecido por ele, e quando levantou a cabeça o sinal abriu.
Merda, mil vezes merda!
A mega só sai uma vez na vida, um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, são ditados populares que nos enchem de sabedoria e tristeza a vida inteira. Acelerou, tentou acompanhar o bólide do mulherão, ela diminuiu, deu uma colher de chá pela segunda vez, agora o vidro do carona arriado, vai que é sua Marivaldo!
Quando foi quase se contundiu. Um caminhão de leite entrou entre eles e a paisagem estonteante, paradisíaca, no meio do asfalto quente da grande avenida ficou vazia, sem vida, mas mesmo assim o coração continuava a mil.
O sinal vermelho de novo e o caminhão de leite entre os dois, frustrando, quem sabe, uma noite inesquecível, daquelas que você só conta para o único amigo que tem, depois de juramento em cartório, selado e comprometido, com penas severas pelo descumprimento da manutenção do sigilo.
Ficou emputecido ao mesmo tempo que sonhava. Maldito caminhão de leite, malditas vacas do mundo inteiro que produzem leite todo dia a toda hora, invadindo a vida de todos nos momentos mais impróprios.
O sonho não se esvaía apesar do caminhão de leite. Pensou no diálogo, nas perguntas, nos ajustes, no meu ou no seu apartamento, um jantar hoje com vinho português, aquele único que eu já tomei na vida, quem sabe, amanhã, na hora do almoço, se ela for casada, a vida é bela pelas oportunidades e pelo cardápio de variações que oferece.
Sinal aberto, vidro da direita aberto, o caminhão arranca sonolento, ela avança e diminui esperando que ele emparelhe outra vez.
Minha Senhora dos Necessitados eu não mereço tanta deferência, ela não viu a barriguinha que estraga a estampa de forma implacável. Mas o resto agradou, viver o momento e lutar pelos próximos é o que vale na vida.
E ele emparelha, ela faz um gesto avisando que devem entrar num estacionamento de um supermercado logo adiante. Pensou que ia ter um troço, o coração na garganta, o resto subindo, tudo ao mesmo tempo, nada no lugar, dirigir já era perigoso àquela altura.
Pararam.
Saltou de um pulo reconhecendo que a ansiedade pode jogar merda no ventilador. Deu dois passos e parou quase desabando com o rosto no asfalto. A voz era bonita como a dona. De dentro do carrão ela foi rápida e rasteira:
- Sua porta da direita está aberta. Eu estava tentando lhe avisar. Tchau! - E arrancou sem dizer mais nada, porque nunca houve qualquer sílaba a mais para ser trocada entre aqueles dois gladiadores do asfalto.
Valeu!
Abraço!
Rony Lins
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