Ela viu primeiro. Beliscou o braço do namorado surfista, aço puro, que atracado numa salada com todos os frutos do mar, possíveis e imagináveis, não deu bola. Ela insistiu e o gritinho saiu abafado, pelo canto dos lábios, mas deu pra escutar perfeitamente: é ele, amor , é ele! Estavam num restaurantezinho esperto, ultra natural, comidinha levíssima, pronta pra faquir nenhum botar defeito. Duas mesas na frente deles Paul McCartney traçava, concentrado, uma outra salada gigante e colorida do mesmo jeito.
-Cê tá doida, gata, o Paul por aqui, olha o que você está dizendo? Pirou na salada, ou sei lá, na maionese?
Ela insistiu, firme no que os seus olhos viam, amparada nas batidas desordenadas do coração.
- Eu vou lá, amor, vou falar com ele, pedir um autógrafo , um beijo, sei lá, um pedaço da salada dele pra guardar pro resto da vida!
-Que nojo, gata, essa merda estraga rapidinho! - ele não cedia, ou tava mesmo com ciúme. - Cê não vai pagar um mico desses, vai? Pode ser um clone do homem, você não tá vendo que o homem não ia comer salada aqui junto da gente?
- É ele, gato, é ele, o homem tá se apresentado aqui no Rio, não está?
- Tá, tá se apresentando no Rio, mas não tá comendo salada aqui com a gente , não pode ser!
Ela já estava de pé, a mão no peito tentando travar o coração, linda de viver, cabelos dourados, sarada de cabo a rabo, Paul McCartney na frente dela, simpático e livre, um almoço de descanso de todo o tumulto, quem sabe explicar uma loucura dessas?
-Gata. você não vai me deixar aqui pelo Paul! - A insensibilidade do gato não estragava a tarde de jeito nenhum.
É um Beatle, amor, é um dos Beatles, gato, você vai ter que me perdoar!
Aí ele disse que não perdoava, que mulher dele não abordava homem em outra mesa de restaurante nenhum, que ele não era otário, que ele também gostava dos Beatles, mas não a esse ponto e a discussão saiu do restaurante, passou por Liverpool, Londres, Eua, e voltou ao restaurante natural. O namoro dos dois balançou e por um tempinho razoavel o Beatle foi esquecido na mesa de canto. Quando ela conseguiu superar a crise e caminhou em direção ao baixista dos Beatles o grande Paul já tinha evaporado.
Ela saiu aos prantos, procurou em vão, e no embalo do fracasso abandonou o surfista prateado com garfa e faca na mão e nunca mais se viram.
Abraço
Vaelu!
Rony Lins
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