A vida não é assim...
Maria chuteira assumida, fanática pelo centro avante do seu time, torcedora fiel de todas as horas, inclusive nas grandes derrotas. Paixão pelo moreno forte, goleador de cabelos lisos e porte incrível, belo e distante, deus dos gramados e das suas madrugadas solitárias, maria chuteira apaixonada, jovem, na flor da paixão não correspondida, e sem vergonha nenhuma de assumir a sua preferência futebolística.
Um dia decidiu. Um domingo qualquer, depois do jogo, seguir o amado e descobrir o seu paradeiro, realizar o sonho.
Não foi tão difícil. O motorista do clube era vizinho de um primo e foi fácil entabular planos, descobrir trajetos e horários, preferências e locais para um domingo depois do clássico.
- Ele fica na pizzaria do Élcio, filha, uma famosa da Zona Sul, lá pelos cantos do Leblon.- O senhor grisalho e simpático não dificultou, sabia pelo vizinho primo , da paixão avassaladora, que vinha emagrecendo a maria chuteira. - Lás pelas nove da noite ela salta em frente pra traçar uma pizza. Mas acho que tem gente mais antiga nessa parada... - O alerta do motorista parecia um sinal amarelo, mas sem forças pra qualquer alteração nos planos.
Domingo, o jogão. Ele fez dois , mas o time cedeu o empate. Tudo bem, no geral valeu, a vida não é sempre como a gente planeja, a vida não é assim, preto no branco.
Depois do jogo, no táxi combinado, seguiu o ônibus e conferiu a verdade do senhor que dirigia o veículo do clube. A pizzaria certa, charmosinha, mesinhas na calçada, o artilheiro pegando uma mesa de canto, uma louraça na espera, terceiro chopinho, talvez.
Ela vem, entra no restaurante e sai de garçonete, fardada, tudo funcionando como planejado. E já vem trazendo o chope que ele nem pediu. O alvo, a louraça, toda molhada, levantando furiosa, a ida ao banheiro, quem sabe, então, cinco minutos com ele, olho no olho, declaração de paixão.
Tudo errado. O chope virando em cima do artilheiro, o banho inesperado, a fúria em resposta, o levantar abrupto e a descompostura rápida e brochante, alguns palavrões perdidos no ar.
Ficaram as duas, maria chuteira e louraça, olhos nos olhos, desapontamento em volta, um pouco de raiva de ambos os lados, mas tudo sob controle.
Ela procurava um buraco pra se enfiar mas a louraça não deixou. Ela ouviu claramente a frase inesperada, doida, a última na bolsa de apostas de qualquer pessoa naquele bar, um consolo doce no rastro da perda dentro da noite escura do seu centro avante de sonho.
- Senta aí e toma um chope comigo. Liga, não, ele tem pavio curto...
Valeu!
Abraço!
Rony Lins
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