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segunda-feira, 19 de novembro de 2012
Contando um conto...
A vida não é o que parece...
Desenganado.
O que começou numa tosse esquisita, o corpo sacudido como trapo velho judiado pelo vento, evoluiu e deu no que deu.
Vieram as dores sem mais nem menos, os suores alagados, dores de cabeça de candidato à vestibular, uma tremura no braço esquerdo que deixou a família em pânico. A fala se engasgou toda e não saía uma frase completa sem esforço de atleta olímpico.
Internado. A terceira vez em três anos, e esta última, sem qualquer dúvida, a pior de todas. Jogado em cima de uma cama, a família em volta, reza pra todo o lado, todos os credos do mundo, ele um esqueleto, uma caveira encomendada Ao lá de cima, algumas lágrimas começando a escorrer entre os mais chegados, a hora se aproximando, agora não tinha jeito, a Malvada viera buscá-lo depois de duas internações anteriores, o corpo expunha os pecados de uma vida inteira, algum cigarro, bastante álcool, as corridas de cavalos, bastante dinheiro jogado fora, mas a família em tudo e por tudo, sempre a luz a guiá-lo para o fim do túnel, a família querida, a razão suprema a justificar uma vida inteira, uma existência como a de qualquer um de nós, louca e sem sentido nenhum.
Ele percebeu que a coisa era grave e resolveu tirar o fardo dos ombros. Aquilo doía muito e o peso era insuportável. Esperava um momento propício há muitos anos pra jogar na cara da esposa o fato nojento, a traição inacreditável, a maldade imerecida.
Pediu que o quarto ficasse vazio, aumentando, de forma inesperada, o tamanho físico da esposa, debruçada na cama, uma sombra negra sobre o seu sofrimento. Quase desistiu. Mas, necessitava fazer essa confissão só a ela, a gigante que o suportara uma vida inteira.
Soltou na lata.
- Sabe a Alice?
- Alice? - a esposa sabia quem era mas tentou não entender.
- É, a Alice, sua melhor amiga. A nossa Alice.
- Nossa? - a esposa pressentiu algo de errado no ar, aquela possessão, no que condizia com a amiga Alice, soava deslocada e fora de prumo.
-É,Alicinha, mulher do Maurício, mãe do Pablo e da Carolina...
Essa descrição da família inteira não estava programada e tornava as coisas verdadeiramente insuportáveis.
- Ah, sei, ela saiu tarde daqui, ontem.
Tomou forças emprestadas junto à morte futura e mandou ver:
- Eu tenho um caso com ela há mais de dez anos.
-Caso? - a esposa parecia grogue com o golpe na ponta do queixo.
-
E, caso de cama e motel. Nós transamos há mais de dez anos. Eu não aguentava mais lhe enganar, Tereza, precisava tirar esse peso dos ombros antes de partir, esse piano em cima das costas, eu não aguentava mais. Perdão pelo caso e perdão pelo momento em que eu estou me abrindo com você...
Ela emudeceu e deixou o quarto. Ele se preparou para a longa viagem, aliviado com a pérfida sinceridade, satisfeito, apesar de moribundo, como a propria coragem.
No dia seguinte o quadro mudou. Como se tivesse relação direta com a confissão, com o alívio experimentado, seu quadro de saúde melhorou em razâo inversa ao humor de sua mulher.
Sem que os médicos entendessem o porquê, ele foi saindo do pior para o melhor e sua mulher nâo parecia satisfeita com isso, toda a família já percebera. Foi se alimentando melhor, encorpando, secaram os suores e as dores diminuiram muito. Dois dias depois já caminhava no quarto, apesar de cabisbaixo e meio sem graça, como se envergonhado da própria melhora depois do susto gigantesco que dera na família.
A mulher monossilábica, acompanhou e ajudou na reta final da sua salvação. Os médicos diseram que milagres ocorrem, e o seu caso era digno de uma tese em congresso de medicina.
Ele e a mulher gelados como picolés, colocados lado a lado em geladeira de padaria.
Escapou pela terceira vez.
Chegaram em casa e a mulher ordenou que arrumasse suas tralhas e saísse de casa. Para os filhos veio aquele papo de uma viagem adiada e que agora seria possível fazer, um agradecimento à Nossa Senhora da Aparecida. Todos estranharam a ausência da mãe.
Arrumou-se numa pensão barata, café da manhã com pão borrachudo e margarina.
Solidâo total, nem a televisão foi ligada. Com uma semana desabou sobre a cama velha com dores no peito que não estavam de brincadeira.
Foi achado morto num quarto de pensão, uma semana depois de deixar o hospital recuperado como um milagre da ciência.
Os filhos, até hoje, culpam o mau humor da mãe pelo episódio.
Abraço!
Valeu!
Rony Lins
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