A vida não é o que parece...
O peixe morre bela boca, mas o homem também.
Sempre ouviu falar do ditado e do complemento que a humanidade acrescentou a não sei quantos milênios. A dor voltou, invasão bárbara do peito, descendo pelo braço esquerdo, formigamento até nas bordas da bunda, respiração insuficiente pra segurar uma vida pra lá de meia idade, suor fora de hora, uma merda geral, infarto no duro, a ameaça voltando pela quinta vez naquele ano.
O amigo na mesa do restaurante meio abobado, sem saber o que fazer, fazendo perguntas dispensáveis, trocando a ação salvadora pelo interrogatório médico superficial, inapto a salvar um cachorro tossindo no meio da rua.
Alguém sugere, leva pro hospital, leva, chama a ambulãncia, o restaurante vira uma praça de guerra, metade da clientela desiste, dois casais saem sem pagar a conta, alguns garçons xingam o doente de tudo que é nome, alguns ficam pra ver se ele sobreviveria, outros entram pra consumir o sofrimento do homem empapado de dor e angústia.
Já no caminho, dentro da ambulãncia a dúvida não cede, o paramédico não garante cem por cento se é enfarto ou não, ele pede pela presença da Elza, chama a Elza, a Elza pelo amor de Deus, a Elza, depois as forças divinas, primeiro a Elza, pelo amor dos enfartados!
Quando ele deu entrada, milagre é milagre, vai entender, a Elza já estava lá e acompanhada dos dois filhos, ambos maiores, um casal encaminhado na vida, mas crispados e meio perdidos como filhos pequenos que se perdem dos pais num parque qualquer da vida.
Atendimento rápido, eficiente, checagem indispensável, a família vai ter que aguardar.
E lá vem ele uma hora depois e junto, grudada na cama sobre rodas a informação de que seria obrigatória a internação por uma noite, cautela e canja de galinha só fazem mal à própria galinha, não é mesmo?
A família decide a rotina , o rodízio do plantão de amor e cuidados e os filhos se vão. Ele fica com a sua adorada Elza, como tanto pedira.
Ainda grogue, mas de olho aberto, quer falar precisa da Elza pra falar alguma coisa.
- Você tem que descansar, homem de Deus, se aquiete, não é hora de contar história. -A mulher fala o que todo mundo fala, mesmo que ningém entenda porra nenhuma de medicina, todo mundo diz que o camarada tem que descansar numa hora dessa.
Mas ele quer falar e insiste.
- Elza? Elza, meu amor... - A voz soa num zigue zague fraco e forte, como se as palavras viessem de longe e de perto ao mesmo tempo.
-Cala a boca, homem! Vê se descansa, meu Deus.
- Eu tô morrendo, Elza, preciso falar antes de passar pro andar de cima. É muito sério, Elza, você não vai me perdoar. Esse enfarto pode ter sido o último da minha vida, entende?
Aí houve uma transformação no cérebro da Elza. O coração ficou pra trás e o raciocínio frio e matemático tomou a dianteira.
-Você tá falando de que, homem de Deus? É algum dinheiro que eu não sei?
- Não, Elza, não é dinheiro - era um fio de voz, meio medroso, ele preferia mil vezes que fosse um dinheiro escondido o assunto a ser revelado naquele quarto invadido pelo enfarto.
- Então...? - Elza parecia meio irritada, já não era a mulher condoída pela situação caótica que abarcara a saúde do marido.
- É sobre a Gina - ele tentou virar de lado pra não encarar o rosto da esposa, mas não deu, estava muito fraco, o movimento rotatório, naquelas condições, era coisa pra gigante.
- A Gina, eu sei, a nossa amiga Gina, sempre esteve conosco, ela já sabe, eu mandei chamar, ela está vindo pra cá.
Ele soltou um uivo de lobo ferido, cercado por uma matilha de fêmeas furiosas.
-Eu estou morrendo, Elza, e não posso deixar de confessar esse pecado.
- Pecado? - Elza parecia cada vez mais enfurecida, uma delegada de polícia à beira da cama de um criminoso, tentando as últimas informações, como nos filmes policiais.
E aí ele vomitou tudo de uma vez:
- Eu dormi com ela vinte anos, Elza, a Gina foi minha amante por vinte anos, a sua melhor amiga! Eu quero subir sem pecados, Elza, eu quero me depurar, eu não quero atrasar minha subida, Elza, por isso eu confesso na hora da minha morte, eu comi a Gina por vinte anos...
-Desgraçada! - Elza era um tornado dentro do quarto de um hospital, prestes a abater um quase morto de enfarto.
- Eu também, Elza, eu também, a culpa não é só da Gina.
Ele pressentiu que a esposa ia apressar sua morte quando Gina entrou no recinto logo atrás da enfermeira.
Elza saiu e Gina foi atrás, como se atraída pelo perfume da fúria de uma esposa enganada por vinte anos.
E então ele ouviu da enferemeira que tudo não passara de um susto, não havia enfarto algum, o doutor já ia liberá-lo de imediato, com recomendação de uma vida menos estressada, não sendo necessária a internação programada.
Saiu duas horas depois e não viu ninguém. Sozinho, carregando uma malinha tipo sem teto. O jeito foi um táxi. Subiu e abriu a porta. Na sala Elza e Gina, com olhares homicidas já esperavam por ele, informadas pelo hospital, inclusive do uso do táxi.
Sentiu uma dor muito forte no lado esquerdo do peito, o mal estar avançou pelo braço esqueredo, o formigamento voltou, a respiração se alterou, o mundo escureceu, as pernas bambearam, a voz não saiu , o suor voltou em cascatas colossais.
Desabou, e dessa vez, estava infartando pra valer.
Valeu!
Abraço!
Rony Lins
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