A vida não é o que parece....
- Nem Deus segura esse homem!
Esse grito, produzido nas arquibancadas dos estádios todos os domingos do ano, saudava o seu ídolo, o goleador que endoidava os inimigos e, assim, preenchia as suas carências semanais. Um desabafo de guerreiro que teimava em perder no jogo da vida.
A mulher já reclamara umas duzentas vezes e nada. Em casa, na hora da novela, na frente das crianças, na frente de um vizinho, lá vinha o grito de guerra, meio deslocado, perdendo ou ganhando, nem Deus segurava o seu ídolo!
- Para com isso, homem, não mete Deus em jogo de futebol, isso dá azar pra família toda!
- Besteira, mulher, Deus sabe que o homem é bom de bola, Deus quis assim, eu só reconheço a obra divina.
E centenas de vezes tentou se aproximar do ídolo, na chegada do time ao estádio, na saída do time, depois de vitórias memoráveis ou derrotas acachapantes, conseguir um aperto de mão, um sorriso, quem sabe, um tapinha no ombro e ele não lavaria a mão o ano inteiro.
Mas, sabe como é, sabe, é sempre assim, armários embutidos e desembutidos, braços imensos e musculosos esculpidos em dez horas de academia por dia nunca permitiram qualquer aproximação, o ídolo sempre à distância, o fosso da força física entre eles, um hiato que a vida nao preenche nem com reza forte.
Manobrista de profissão, restaurantes, boates, teatros shopping centers, carros de todos os tipos e tamanhos, quem sabe um dia, quem sabe o ídolo leva a fome do estômago para seu restaurante, aquela fome de gols ali na sua frente, quem sabe Deus existe de verdade?
Agora, manobrista de uma capela para atender os frequentadores dos velórios, sempre a tristeza e o choro, o preto tomando conta dos seus olhos, o ar carregado, dia a dia pior do que antes, só o grito, o berro de orgulho domingueiro dando um pouco de sentido ao seu dia a dia.
E de um dia pro outro a bomba estourou.
Acidente automobilístico no cruzamento na madurgada levou de roldão o goleador famoso e maior ídolo do seu clube. Pasmo geral e silêncio profundo nos corações dos torcedores.
E eis que que o velório do craque desemboca na sua capela, parentes e jogadores conhecidos chegando em silêncio, o jogo da bola calado pela fatalidade.
Estacionou o carro de uma tia e duas primas do craque, agora uma saudade que rasgava o coração, deixando a respiração feito um exercicio em aparelho de academia.
Voltou e entrou pela sala do velório, esgueirando-se com habilidade, como fazia nas arquibancadas dos estádios, sendo ajudado pelo uniforme, a hierarquia ajudando na hora triste e cinzenta.
Debruçado sobre o caixão deu um tapinha no ombro do cadáver e o choro desabou convulso. Todos esperavam por um beijo, não havia dúvida. O silêncio era respeitoso e curioso.
O grito saiu potente, vitorioso, com um recheio inexplicável de orgulho:
- Nem Deus segura esse homem!
Ninguém entendeu nada. Mas uma salva de palmas estourou após alguns segundos, e um conhecido meu que estava presente garantiu que durou três minutos pelo menos.
Valeu!
Abraço!
Rony Lins
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