A VIDA NÃO É O QUE PARECE...
Leu na revista especializada em saúde, forma física, fitness, moda, estilo, perfumes, carrões, mulheres, paquera e sucesso, que acabara de assinar: coragem, amigão, confiança, você ganha pontos com elas quando justamente é corajoso na conquista.
Agora, noite de sábado, ginástica feita de manhã, vestido nos trinques, sem carrão e sem mulher, perfume no tom apropriado, sozinho como sempre tem sido nos sábados à noite da sua vida de homem touro, verdadeiro caçador, fera, sempre à procura da caça que lhe escapa entre os dedos, o medo sempre rondando, o pavor do fracasso, o ninguém berrando no seu ouvido no fim da balada, é, não se pode negar, o eu sozinho pesa mais do que qualquer porre envolvendo a mistura que você quiser.
Na porta do bar, depois daquela geral de gavião em busca da presa, seu olhar pousou numa mesa com cinco mulheres. Uma gordinha, outra magra demais e além da idade ideal, e mais três gatas em ponto de bala. Lembrou dos conselhos da revista lidos no último número que recebera pelo correio: você está sozinho e a mesa coalhada de belas mulheres, não tem problema, leitor, você chega junto sozinho mesmo, cumprimenta todas e puxa papo apenas com a garota que você deseja. Não perca tempo com as outras, tempo é dinheiro, tempo é sexo, meu chapa. E a revista tem conselhos incríveis: mulheres são competitivas por natureza, e demonstrar na lata que é só uma delas que você quer, vai encher a mina de orgulho, de valorização, ela vai se sentir a última gasosa do deserto.
E tem mais, meu amigo: você, com esse tipo de atitude, que não teme críticas do grupo, já é um vitorioso. Depois de um papinho pegue o telefone da eleita ou saia direto com ela para um lugar mais calmo.
Vitaminou a coragem ao dispensar a gordinha e a magra demais, num preconceito desgraçado que a sociedade de hoje incentiva. O grupo era menor do que pensava. Repassou na memória os conselhos editoriais e mergulhou de cabeça na felicidade sonhada e perseguida. Cumprimentou geral e só a gordinha respondeu. Sentiu um frio na espinha, mas o caminho era sem volta. Ganhou o bico da mesa ao lado da morenaça de olhos verdes, pura artista de novela, desperdiçada como secretária no serviço público. Colocou um biombo imaginário naquela mesa de bar onde só cabiam ele e a morena. Perguntou pelo nome, gosto pessoal, atividades, esportes, mas recebeu a notícia de que o papo era o jugo da China sobre o Tibete, a situação do Dalai Lama e como ele era tratado pelos chineses.
O frio na espinha desceu para o rabo e sentiu uma contração, tipo fisgada na coxa direita. Daí o papo mudou a direção e desceu para a esquerda do mapa, concentrando-se nas possibilidades do Obama nas eleições do ano que vem. Ele dizia que sim, tudo podia acontecer, ele gostava do Obama pra valer, ficou devendo uma posição sobre o Dalai Lama, mas sentia o chão meio mole, areia movediça podendo afundar a qualquer momento.
E o pior. Puxava conversa com a morenaça dos olhos verdes e coxas de atleta olímpica e nada. Ela não se sentia prestigiada porra nenhuma, e nem animada merda nenhuma, e se era competitiva, como dizia a revista, só se fosse no trabalho ou praticando esportes.
Começou a suar numa noite fria que ensaiava uma garoazinha poética. A gordinha lhe fez as perguntas não respondidas pela morena de olhos verdes,sim, trabalho, faço isso e aquilo, é, gosto de viajar, não,correr não corro, porque a coxa sempre dá uma fisgada como agora. O papo rolando sobre a situação política no mundo atual e ele, ali, em pé, como um garçom de plantão, estátua séria, branca de vergonha, dando um pitaco sem sal de vez em quando, sem conseguir entabular o papo direcionado pra morena escolhida, apto a dar frutos, noite suculenta como sempre sonhara. Quando a gordinha recusou o telefone ele jogou a toalha.
Foi direto pra casa, pegou a revista e tocou fogo. Depois, no primeiro dia útil, cancelou a assinatura.
Valeu!
Abraço!
Rony Lins
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