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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O palco ficou menor...

Sérgio Britto partiu e o teatro ficou com a voz rouca, triste, lacrimosa. É num momento como esse que se avalia melhor o ditado cruel  e verdadeiro de que o espetáculo não pode parar, porque a vida empurra e não deixa o palco emudecer de todo, apesar de todas as vozes insistirem na mudez sofrida. Mas com uma notícia  assim, o palco encurta mesmo e as gargantas ficam ásperas e muito doloridas. Sobre o tema o colunista Artur Xexéo escreveu na última página do Segundo Caderno, de hoje, do Globão , 21.12.2011, e o Blog transcreve alguns  excertos:

" Sérgio via de tudo. Da comédia mais convencional numa sala do Leblon à experiência mais vanguardista no porão da Laura Alvim. E ainda dava um jeito de assistir a alguns filmes, entre uma peça e outra.
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Ultimamente, suas precárias condições físicas dificultavam essa atividade. Ele não podia mais fazer viagens longas, por exemplo. Substituiu, então,  as idas ao teatro em Londres ou Nova York, por "viagens teatrais" a Buenos Aires. E voltava tão empolgado com as peças argentinas quanto com as que via no West End ou na Broadway. Mas, de uns anos para cá, até Buenos Aires teve que ser descartada. Ao teatro no Rio, porém,  ele nunca deixou de ir. Só exigia  ingressos nas primeiras filas. Sérgio Britto já não estava enxergando direito. Tinha dificuldades em reconhecer até os velhos amigos.
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Para Sérgio Britto , vale o clichê: ele respirava teatro. Se ainda existia vida em Sérgio Britto, tinha que haver também teatro. O público perdeu um grande artista, o teatro perdeu o maior dos seus apaixonados, e meu telefone... ah, meu telefone perdeu a mais atraente de suas funções."



Deus chamou o talentoso Sérgio Britto porque, na certa, precisava de um diretor porreta para organizar algum drama que se desenrolava lá por cima das nuvens. O espetáculo desencontrado, quem sabe, as roupas dos anjos, a música adequada, o timbre de voz dos atores, o ritmo cênico inadequado ao drama imaginado por Ele. E chega o grande Sérgio, a figura certa e ideal para que o espetáculo se encaixe com as idéias Daquele que tudo pode. E parece  que eu estou vendo as cenas, como numa peça, acontecendo bem na minha frente:

- Ele acabou de chegar, Senhor. - O anjo ajoelha e aguarda em silêncio.

- Manda o homem imediatamentee aqui, nós não temos um segundo a perder, vocês não conseguem bolar algo que preste! - A voz era poderosa e só pelo timbre já era uma ordem. Sérgio chega, flutua , parece feliz e gosta do que vê. Os anjos e o ambiente são pura poesia,  personagens  sempre amados pelo recém-chegado.

- Desculpe, Sérgio, não tive opção, mas eu preciso de você. - A voz continuava tronitruante mas era simpática e amável, sem sombra de dúvidas. - Nós estamos bolando um espetáculo de fim de ano e até agora nada, nenhuma idéia, nenhum roteiro. Nós queríamos algo mais humano, mais Terra a Terra, você sabe, algo mais ligado a vocês do que a nós.... Nós não  temos  a experiência suficiente e...

E? - Sérgio prendia a risadda com enorme dificuldade.

- E aí eu pensei em você, um gênio do teatro humano, Sérgio. Você me desculpe pela data, não sei se você ficou chateado, mas eu precisava demais de um especialista e...

- É, não vou dizer que eu vibrei com a Sua escolha, mas vou concluir que eu agora compreendo o Seu chamado. Se o Senhor permitir ... - Sérgio viu um vulto branco balançar a cabeça afirmativamente -  eu vou mudar o cenário, a música, a roupa dos anjos e mexer no texto um bocado. É que de drama humano eu entendo  um pouquinho...

- Não mais  do que Eu, Sérgio! -  A voz  que já era poderosa ao extremo pareceu meio brava. Nunca mais do que eu!

- Mas, no palco, Senhor, eu falo do drama mostrado no palco... - Sérgio ficou meio encagaçado por alguns instantes, talvez tivesse extrapolado.

 -No palco? - Houve um silêncio de milênios. -No palco acho que você tem razão , querido. Mãos à obra !


Valeu!

Abraço!

Rony Lins 

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