Falece uma amiga querida, e na onda de dor que engolfa tudo e todos surge a necessidade das providências administrativas, paralelas aos comentários recentes sobre a relatividade do destino humano, como é que pode uma partida assim, sem aviso prévio, veloz e brutal na sua forma implacável.
E na administração do cemitério, o funcionário super treinado nos assuntos que circundam a morte é muito eficiente e didático na oferta de opções para que se concretize o sepultamento.
Hoje ele é feito sob uma lápide branquinha colocada sobre a relva verde, como a gente cansou de ver nos cemitérios americanos mostrados pelo cinema zilhões de vezes. Sob a lápide branquinha encaixam-se duas gavetas, ou seja, dois corpos podem ser sepultados sob a mesma lápide, um por cima do outro, com os respectivos nomes , datas de nascimento e falecimento devidamente inscritas.
Se o cliente quiser alugar a lápide por dez anos fica mais barato, mas o parente será sepultado na gaveta de baixo, e quando surgir outro falecido,qualquer um, este último, que chegou depois, será sepultado na gaveta de cima, ocultando o nome do falecido da gaveta de baixo. Se a família do último sepultado concordar,e eu não conheço nenhuma que tenha aceito tal condição, os dois nomes constarão da lápide da gaveta de cima. Se não concordar, tchau e benção, o nome do seu parente, sepultado em baixo, fica só na lembrança, sem nenhuma marca visível à céu aberto.
Ah, mas eu gostaria de alugar uma sepultura vazia e colocar o meu parente na gaveta de cima. Não pode, a regra da empresa, sim, empresa, o cemitério foi privatizado, só permite sepultamentos na gaveta de baixo, quando as duas estão vazias.
Então eu quero uma gaveta de cima que esteja disponível e vou pensar se concordo com os dois nomes na lápide do meu parente. Nâo existe nenhuma gaveta nessa condição, qual seja, com a gaveta de baixo ocupada , esperando um sepultamento para ficar completa.
A solução, diz o eficiente funcionário, é comprar as duas gavetas, que ficariam, de modo perpétuo à disposição da família, só podendo alguém ser sepultado na gaveta de cima com autorização da família. O preço para a compra da lápide com duas gavetas fica quase o dobro do aluguel.
O parente, corroído de dor, e não desejando que o seu parente querido desapareça sob o peso de uma gaveta estranha, compra o túmulo pelo preço em dobro, afastando-se, assim, dos riscos proporcionados pelo mero aluguel.
O marketing da morte é tão eficiente quanto o dos vivos. Tudo é bolso, ainda que os mortos nada levem.
O jeito foi pagar no cartão de crédito, parcelado em 4 vezes.
Morrer é tão caro quanto viver, e ser dono de cemitério é um dos melhores negócios do mundo dos vivos.
Odorico Paraguaçú, o prefeito bem amado de Dias Gomes, tinha toda razão quando brigava com todas as forças para inaugurar o cemitério de sua cidadezinha no sul da Bahia, procurando um morto do jeito que desse, e olha que a motivação dele era outra, bem diferente do vil metal.
Seu eu fosse começar a vida hoje, comprava um terreninho, aparava a grama bonitinha, colocava uns arranjos e contratava dois jardineiros dos bons. Na porta, um nome simpático, quem sabe, SONO ETERNO, e era só esperar o saco de dinheiro ficar entupido. E ainda fazia em seis vezes, melhor do que eles, que só parcelam em quatro a última viagem dos nossos parentes queridos.
Valeu!
Abraço!
Rony Lins
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