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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MUNDO CÃO...

Domingo pela manhã passeio com o shitsu Bruce aproveitando uma brecha de sol, uma trégua dentro do mês de janeiro cinzento e aguado, triste e melancólico, corriqueiro na capital federal.
Sentamos num banco perto de uma igreja. Aproximam-se cinco crianças, de um a dez anos(o menor num carrinho de bebê empurrado pelo mais velho, de 10 anos), integrantes de uma família que esmola todos os domingos no mesmo local, enquanto pai lava os carros de alguns fiéis.

As crianças ficam encantadas pelo cachorrinho, e param pra falar com ele e comigo, e tome carinhos e lambidas pra tudo quanto é lado, ao mesmo tempo em que chegam as perguntas sobre o nome do cão, a idade, se morde, o que come , como dorme, se gosta de passear, se gosta de criança e porque o rabo não para de abanar...

O tempo passa rápido, é domingo, o sol convida ao bom humor, e como têm suas perguntas respondidas e saciadas as crianças ganham confiança e contam, na medida do possível, um pouco de suas vidas. Você percebe que conversa com um grupo de sobreviventes, pequenos guerreiros forjados na argila dura e ressecada de um dia a dia que criança alguma deste planeta deveria merecer.

São nove filhos ao todo e a mãe tem uma menina na barriga, Izabela, pronta pra chegar. Os sorrisos afluem quando se fala de Izabela e os olhinhos são bondosos quando as mãos fazem carinho no cachorro.

E você fica sabendo que o pai não gosta de cachorro.Batia nos dois que a família tinha Deus sabe onde e, às vezes, não dava comida, irritado quando os cachorros faziam xixi dentro de casa. A mãe não diz nem sim nem não,e eles ficam sem saber o que ela acha dos cachorros do mundo. Na vizinhança morre bicho todo dia, cães, gatos, ratos, sapos, e tem gente á beça que não gosta dos cachorros como elas gostam. Fazem maldades com os bichos e elas não sabem o porquê de tamanha fúria contra os inocentes animais. Uma delas diz que quando crescer vai ter um cachorro bem cuidado, com todo o carinho que ele merece, e que ela própria não tem.

Todos os olhinhhos são tristes mas o amor pelos bichos ainda não morreu. Dos bichos as histórias passam a girar sobre humanos sem paciência, atitudes desembestadas e enlouquecidas que fazem parte do dia a dia de crianças como elas. Falam dos irmãos maiores que sonham em jogar futebol pra valer, o que poderia, quem sabe, se o Deus dos gramados desse uma força, tirar a família da miséria, o que nem passa pelas cabecinhas preocupadas com a saída da missa, e a obrigação de realizar uma colheita de reais produtiva para a família.

E voltam sempre as histórias recheadas de violência e desamor, já constantes no consciente dessas crianças do Brasil.

Mundo cão.

Queira Deus que elas cresçam num mundo melhor e que possam ter seus cachorros recebendo ração e carinhos, e que tenham suas futuras famílias melhor estruturadas.

Queira Deus que Izabela, ainda na barriga, veja a luz no fim do túnel e escape desse maldito círculo vicioso capaz de transformar um domingo de sol ao lado de uma igreja numa manhã cinzenta e nublada, clima só percebido por quem conversa com crianças que colhem reais na saída do culto. Tomara que o Homem permita que Izabela viva num mundo onde os pais gostem de cachorros, como seus filhos também gostam...

Os cachorros do mundo inteiro que me perdoêm, pois o título da postagem a eles não faz jus de jeito nenhum...

Valeu

Abraço!

Rony Lins

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