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terça-feira, 22 de maio de 2012

Contando um conto...



A vida não é o que parece...

E ele chegou. Cidade média, insossa, um pontinho desfocado no mapa, interesse nenhum pra quem quer que seja. Ele veio como desfecho de uma batalha hercúlea do Chico livreiro, o louco que insistia em vender cultura por aquelas bandas, a portinha  com  três ou quatro estantes, a promessa de que traria o escritor famoso em carne e osso, a cidade ria da angústia do livreiro.

E ele chegou. Convergência divino fantasmagórica que deixou lado a lado, sabe lá Deus por quais motivos, a vontade do governo de expandir a cultura no país, com uma rede de televisão expandindo o puxa-saquismo junto ao governo e a reportagem sobre a labuta de Chico livreiro, todos  trazendo o décimo lançamento do cinquentão  famoso, cabelos prateados e sorriso de televisão, bonito o homem e brilhante a pena, para a principal confeitaria da cidade, um rebuliço de porta de pronto-socorro em hospital assoberbado de serviço.

E ela na fila, solteirona bem cuidada, um emprego pro gasto, todos os nove livros anteriores bem lidos de cabo a rabo. O sol a pino e o coraçãos aos pulos, aos berros, aos sacotes e pinotes, apertar a mão do ídolo literário, ganhar um beijinho e uma dedicatória.

As pernas bambinhas, merda de ginástica que promete tanto e não cumpre, fila que demora, mas não sente fome, o dia não tem horas, os relógios não têm ponteiros. Ganhou beijinho bobo e dedicatória curta, apressada, meio obrigatória, que deixou pra ler em casa, sozinha, na implacável solidão que sempre encheu sua vida.

E não acreditou no que leu, mas estava lá, com autógrafo em baixo:

"Meu sonho é comer você"

Leu quinhentas vezes pra confirmar a gramática e a intenção texto e nada se alterou. As pernas continuavam fracas e o coração desordenado, clamando por um comando que findasse aquela tortura.

Chamou a única amiga da cidade, vizinha do lado, mal casada e com  três filhos. Explicou a admiração que ameaçava  se esfumaçar, o sonho de trocar duas prosinhas sobre livros anteriores, nada que comprometesse nada nem ninguém, o escritor era casado, todo o país sabia, não havia da parte dela... Só se fosse um mal entendido, algo a carecer interpretação mais aprofundada, exercício de hermenêutica acima das suas possibilidades.

A amiga professora resolveu o imbróglio. Apesar da sua falta de entusiasmo pelo estilo literário do suposto Casanova compraria o livro e pegaria a fila da dedicatória,  junto com ela, pra ver no bicho que dava. Nesses casos, a professora ensinava com conhecimento de causa, é olhar dentro  dos olhos do oponente, evitar a piscadela inoportuna, e tirar do sorriso que vem do outro lado, ainda que profissional, a resposta para esse jogo de pega e larga.

No dia seguinte, o último do artista na cidade, entraram na fila, agora menor e menos entusiasmada, ganharam beijinhos inofensivos, ela comprando o mesmo livro pela segunda vez, e a professora séria, com ares de espiã prestes a captar o segredo que salvaria o mundo.

Foram para um café,  abriram seus livros e leram suas dedicatórias, devidamente assinadas, idênticas no tesão que portavam:

 "Meu sonho é comer vocês duas".

Quando o café terminou o silêncio pesava uma tonelada. Deixaram os livros sobre a mesa e mergulharam indecisas no futuro de suas vidas. A professora divorciou-se  três meses depois e ela anda pelo país procurando uma nova fila de autógrafos de um novo lançamento dele,  ansiosa por uma resposta.

Valeu!

Abraço!

Rony Lins

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